junho 2012

 


Não saberia dizer em qual medida, mas me parece que há uma relação intrínseca entre as drogas e a religiosidade (concebida aqui no seu sentido mais profundo) que precisa ser analisada com maior atenção e rigor. Parece-me sensato dizer que aqueles que se drogam (e estou falando aqui de casos clínicos – ou dos que deveriam ser clinicados –, não de usuários esporádicos que conseguem dosar a sua própria medida e viver em sociedade sem nenhum tipo de perturbação) possuem um motivo muito mais inconsciente do que simplesmente a busca pelo prazer. 

Aliás, a relação entre drogas e inconsciente talvez seja o nó górdio desta questão, o que – verdade seja dita – não é nenhuma novidade, já que desde a década de 60 do século passado a utilização de psicodélicos por profissionais da área da Psicologia deu a sua largada e a partir daí o seu uso proliferou-se. Entretanto – e aqui faço menção ao pensamento de Terence Mckenna1 –, por conta da opressão das instituições religiosas, o que viria a ser a panaceia das descobertas do que se passa em nossa mente, um desvelamento dos processos psíquicos por conta das investigações em estados alterados de consciência, virou, ao contrário, uma grande neurose social.

Joseph Campbell, um dos mais importantes e influentes mitólogos da atualidade, já apontava para a ausência de ritos na contemporaneidade, sobretudo em relação à juventude transviada, o que ocasionaria uma busca por “recursos” menos ortodoxos para a supressão desta lacuna ritualística. É pela falta de rituais de passagem que determinados grupos criam as suas próprias ritualizações à revelia (as raves, por exemplo, são um exemplo claro disso!), uma vez que as instituições religiosas já deixaram de cumprir o seu papel como veículo de transformação profunda. Muitas religiões atêm-se única e exclusivamente à ética, ou seja, à discussão entre o que é certo e o que é errado e deixam de lado o aspecto da transcendência.

Neste sentido, caberia uma reflexão mais atenta por parte daqueles que se propõem a combater o uso das drogas, pois parece-me que muitas das tentativas não têm surtido efeitos muito relevantes. O que é compreensível, uma vez que as drogas estão implicadas num perturbado eixo sistêmico que envolve sacralidade, crime, tabu, tráfico, etc. Por conta disso, analisar esta questão de modo maniqueísta, separando os vilões dos mocinhos, estará fadada ao fracasso, inexoravelmente.

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1Terence McKenna: autor, explorador norte-americano, passou o último quarto de século da sua vida estudando as bases ontológicas do xamanismo e da etnofarmacologia da transformação espiritual. Mckenna, fundador da "Teoria da Novidade" (um ramo da dinâmica fractal), formou-se em Ecologia, conservação de Recursos e Xamanismo pela Universidade da Califórnia em Berkeley, EUA. Após a formatura, viajou extensamente pelos trópicos asiáticos e do Novo Mundo, especializando-se no xamanismo e etnomedicina da bacia amazónica. Com o irmão, Dennis, é autor de the Invisible Landscape (1975) e Psilocybin: The Magic Mushroom Grower´s Guide (1976).