setembro 2010

                                                 

      Fico impressionado com a manutenção de determinadas posturas de divulgação eleitoral que parecem – ao menos para mim – agir como uma espécie de contra-propaganda. Pergunto-me: «O que um candidato quer dizer exatamente quando coloca cidadãos encoletados com seu nome e número em letras garrafais segurando uma bandeira gigantesca que fica sacolejando todas as vezes que o sinal vermelho é acionado no trânsito?». Se ao menos percebêssemos que muitos deles estão ali para defender a ideologia do seu candidado, por amor à causa nobre e justa que acreditam estar expondo, mas, não! É muito provável que em sua grande maioria todos estejam ali pelo pouco dinheiro que recebem e, é óbvio, pela extrema necessidade destes quinhões. 
       E isso é apenas um dos exemplos – e, aliás, um dos menos agressivos – do que acontece neste período de quase-transe coletivo por parte de uns e de quase-letargia por parte de outros. É uma rede tão confusa de absurdos, de mise-en-scènes oficializadas, de quase-carnavalizações que não sabemos exatamente o que pensar, nem como agir.
      O que dizer do programa eleitoral gratuito?!?! O que é o número absurdo de candidatos que mais parecem fazer parte das pré-seleções do programa Ídolos do que sérios concorrentes ao Poder Público?! Não sei se fico com raiva ou com pena do candidato que age assim, pelo non-sense de suas ações ou pela sua ingenuidade, respectivamente.
      E falo ingenuidade pois imagino que muitos se candidatam – e muitos acabam infelizmente entrando e se enredando na teia da politicagem – pela ilusão de que o “mundo da política” (pensando-o aqui em seu strictu sensu) é o tão sonhado paraíso da mamata, do “trabalha-se-pouco-e-ganha-se-muito” e quando lá chegam percebem que o buraco é mais embaixo, que a rede de poder é absolutamente mais complexa do que isso, que os duelos são titânicos, que os embates são vorazes e que para se virar um joguete do sistema basta uma piscadela fora do foco.
    Que foco?!?! O de que a única razão para estarem lá é o fato de terem se comprometido com o bem coletivo e não com o bem particular e egoísta. Todo político precisa necessariamente ser um idealista. E todo idealista necessariamente é um altruísta! Um silogismo que, infelizmente, nem sempre é verdadeiro em meio a tantos sofistas tentando nos engrupir com mensagens subliminares,  bandeiras, outdoors, discursos clichês, spam's e uma gama enorme de tantas outras poluições sonoro-visuais.
  


 
       Estou estarrecido com tanta punheta que gira em torno da cansativa discussão a respeito da normalidade ou anormalidade dos homossexuais. Parece-me que, em muitas circunstâncias, no frigir dos ovos, há um jogo de egos em que a humanidade se esvai ralo abaixo no embate. Mesmo que Cristo invente de aparecer para apaziguar a discussão e dar um aval, ninguém mudaria de opinião e, bobeia, ele seria taxado de anormal, caso se apresentasse de cabelos compridos, saiote e pé no chão! Uns diriam: "Que cara louco!", enquanto outros diriam: "Que bicha uó!"
       Aliás, discutir o conceito de "normal" no nosso tempo beira o anacronismo. Eu, que sou/estou homossexual (Sei lá o que sou! Eu só sei que sou! Arroto para os rótulos!), só digo aos defensores infatigáveis da anormalidade homoerótica que, se ser normal é pertencer ao status quo com sua hipocrisia, ou seja, casar e procriar mesmo à custa da obliteração do Eu, violentar o corpo e a expressão com posturas que foram incrustadas como sendo as normais (afinal, homem que é homem, não chora, não cruza a perna em "x", não beija no rosto de seus amigos homens, não acha homem bonito, olha para a bunda das mulheres e faz gracejos obscenos e babacas, etc... E isso tudo é normal!) EU SOU ANORMAL!!!
       Talvez - e eu repito, talvez, pois se eu aqui apresentar um juízo de valor, estarei sendo contraditório - um comportamento não tanto saudável, digamos assim, seja a quantidade de homens casados e pais de família que procuram gays, travestis, transexuais, etc. (estes dois últimos, sim, segundo o julgamento dos "xiitas" devem ser uma espécie de representação do demônio na terra), para satisfazer seus fetiches sexuais. Isto sem mencionar os banheiros públicos masculinos onde classes, cores, credos, solteiros, casados se misturam numa fusão de instintos.
          É óbvio que não acho condenável estes fetiches, afinal se as partes envolvidas estão de comum acordo (não é?) qual é o problema? O que não acho muito justo é o fato de enganarem as suas famílias ou seus parceiros. Mas mesmo assim, ainda os respeito pois acho que as coisas não são fáceis de serem resolvidas de modo objetivo. Há que se entender o ponto de vista do outro. O que é fácil é apontar o dedo para o que julgamos ser a podridão alheia, mas olhar para os nossos problemas requer paciência e, acima de tudo, humildade. Lembro de ter lido uma comparação muito sábia não sei aonde: quando apontamos um dedo para outra pessoa, sempre haverá três dedos apontando para o nosso umbigo! Foda, não é? Pois é, eu também acho!
         Como dizia o carinha aquele que era outro anormal (não por ser gay - pelo menos que eu saiba! -, mas por outros motivos!) há mais mistérios entre o céu e a terra que a nossa vã filosofia possa imaginar!
       A propósito, como enquadraríamos um homem casado (a priori heterossexual) que gosta de sair com travesti e ser passivo? Um anormal? Sem querer ser tautológico e já o sendo este homem é um homem casado que gosta de sair com travesti e ser passivo!

           Sejamos felizes, porra!

              Um beijo em todos, em homens e mulheres e suas variações!


       É realmente difícil fazer um comentário a esta questão sem sermos parciais e superficiais ao mesmo tempo, pois estamos lidando com temas de uma complexidade profunda em que o clássico maniqueísmo do certo e do errado não faz sentido algum. Mas, de qualquer modo, parece-me que independentemente da complexidade do assunto é possível afirmarmos que todo e qualquer tipo de intolerância é algo negativo e, neste sentido, condenável. Entretanto, a quem condenaríamos se a intolerância e o radicalismo estão presentes nas ações das duas partes envolvidas na questão?
       O que me parece óbvio (obviedade esta vinda de uma perspectiva distanciada e, portanto, absolutamente parcial, é claro) é que a ação de queimar o Corão em praça pública seria o agente de muito mais problemas do que propriamente de soluções à convivência entre muçulmanos e protestantes. A destruição de uma obra sagrada (e mais do que isso: da obra basilar que fundamenta toda a religião islâmica) no fogo seria metonimicamente a reinstauração da própria Inquisição.
       E agora, José? O que faríamos diante da menção a este cruel episódio da História promovido por cristãos e protestantes? Neutralizaríamos os dois discursos radicais? Ou queimaríamos o Corão e a Bíblia na mesma fogueira?!?!