2010


          Hoje, gostaria de compartilhar – o que se faz com amigos, mesmo que virtuais – de uma micro-felicidade. Talvez alguns já tenham lido ou ouvido falar do livro A conspiração aquariana. Transformações pessoais e sociais nos anos 80, de Marilyn Ferguson. Como o título deixa entrever, ele discute as modificações comportamentais ocorridas a partir da década de oitenta em todo o mundo. Modificações estas que dizem respeito, grosso modo, ao pensamento Ocidental que passa então a assimilar outros valores espirituais e metafísicos vindos do Oriente. A obra faz um giro de 360 graus em inúmeras dimensões da vida, com seriedade e com citações de inúmeros pensadores de credibilidade inabalável, mesmo aos mais resistentes a discussões que fujam ao pensamento cartesiano.
            Resolvi fazer este relato, pois este livro foi cair em minhas mãos de modo inesperado. Um conhecido praticamente me obrigou a ficar com o livro há um tempo atrás. Não quis bancar o mal-educado e levei o livrinho de capa vermelha não muito convidativa pra casa. Durante um tempo, andei com ele para lá e para cá louco para vendê-lo a  um sebo e  conseguir alguns trocados. Se conseguisse 5 reais já dava para tomar uma cervejinha no boteco com algum amigo. Afinal, o que um livro chamado Conspiração aquariana, transformações sociais na década de 80 (!!!) poderia oferecer? Achei que a obra seria um tanto quanto anacrônica. Um belo dia, ao ler um livro de astrologia, eis que leio uma citação desta obra e, por conta disso, resolvi encetar a leitura. Eis que tudo começou a fazer sentido, pois a obra é, de fato, revolucionária!
        Fico intrigado como o universo se encarrega de colocar nas nossas mãos aquilo que necessitamos, dos modos mais inesperados. Eis a sincronicidade junguiana! E isso vale não só para livros que nos chegam “ao acaso”, como pessoas que conhecemos na padaria e modificam as nossas vidas de modo indelével... E o mais "mágico" é que as coisas têm o seu tempo: se eu tivesse começado a fazer a leitura do livro no dia em que o recebi, provavelmente não teria passado da décima página. Eu o li quando ele era para ser lido. Nem um dia a mais, nem um dia a menos. Eis o fluxo da vida entornando sua força em nossas almas. Quantas vezes acabamos nos auto-sabotando e interrompendo o fluxo com nossas "nóias", com nosso ego sedento de glória, com nossa vontade de cristalizar o futuro.
              Talvez a grande sacada seja perceber que tudo é e pode ser mais simples. Não é preciso levar tudo na ponta da faca, nem nos levar tão a sério. E o que é mais engraçado é que tudo pode ser como pode não ser. O que digo talvez seja uma bobagem, mas, no momento, neste exato momento, é a minha verdade. A minha verdade efêmera, mas vital! Alimento-me dela e com ela me mantenho até dialeticamente encontrar uma outra, ad infinitum...
           Bom, era só isso! Apenas um desabafo de alguém com vontade de dialogar sobre Deus, o mundo e seu tempo. Se vocês se interessaram pelo livro, não é necessário que saiam correndo para os sebos em sua busca. Caso haja a necessidade interna de sua leitura, não tenham dúvida, amanhã ou depois, ele estará ali na banquinha de livros usados do seu Zé, jogado num cantinho, quem sabe até com um pouco de poeira, esperando somente a sua chegada e o seu deleite.

                                                 

      Fico impressionado com a manutenção de determinadas posturas de divulgação eleitoral que parecem – ao menos para mim – agir como uma espécie de contra-propaganda. Pergunto-me: «O que um candidato quer dizer exatamente quando coloca cidadãos encoletados com seu nome e número em letras garrafais segurando uma bandeira gigantesca que fica sacolejando todas as vezes que o sinal vermelho é acionado no trânsito?». Se ao menos percebêssemos que muitos deles estão ali para defender a ideologia do seu candidado, por amor à causa nobre e justa que acreditam estar expondo, mas, não! É muito provável que em sua grande maioria todos estejam ali pelo pouco dinheiro que recebem e, é óbvio, pela extrema necessidade destes quinhões. 
       E isso é apenas um dos exemplos – e, aliás, um dos menos agressivos – do que acontece neste período de quase-transe coletivo por parte de uns e de quase-letargia por parte de outros. É uma rede tão confusa de absurdos, de mise-en-scènes oficializadas, de quase-carnavalizações que não sabemos exatamente o que pensar, nem como agir.
      O que dizer do programa eleitoral gratuito?!?! O que é o número absurdo de candidatos que mais parecem fazer parte das pré-seleções do programa Ídolos do que sérios concorrentes ao Poder Público?! Não sei se fico com raiva ou com pena do candidato que age assim, pelo non-sense de suas ações ou pela sua ingenuidade, respectivamente.
      E falo ingenuidade pois imagino que muitos se candidatam – e muitos acabam infelizmente entrando e se enredando na teia da politicagem – pela ilusão de que o “mundo da política” (pensando-o aqui em seu strictu sensu) é o tão sonhado paraíso da mamata, do “trabalha-se-pouco-e-ganha-se-muito” e quando lá chegam percebem que o buraco é mais embaixo, que a rede de poder é absolutamente mais complexa do que isso, que os duelos são titânicos, que os embates são vorazes e que para se virar um joguete do sistema basta uma piscadela fora do foco.
    Que foco?!?! O de que a única razão para estarem lá é o fato de terem se comprometido com o bem coletivo e não com o bem particular e egoísta. Todo político precisa necessariamente ser um idealista. E todo idealista necessariamente é um altruísta! Um silogismo que, infelizmente, nem sempre é verdadeiro em meio a tantos sofistas tentando nos engrupir com mensagens subliminares,  bandeiras, outdoors, discursos clichês, spam's e uma gama enorme de tantas outras poluições sonoro-visuais.
  


 
       Estou estarrecido com tanta punheta que gira em torno da cansativa discussão a respeito da normalidade ou anormalidade dos homossexuais. Parece-me que, em muitas circunstâncias, no frigir dos ovos, há um jogo de egos em que a humanidade se esvai ralo abaixo no embate. Mesmo que Cristo invente de aparecer para apaziguar a discussão e dar um aval, ninguém mudaria de opinião e, bobeia, ele seria taxado de anormal, caso se apresentasse de cabelos compridos, saiote e pé no chão! Uns diriam: "Que cara louco!", enquanto outros diriam: "Que bicha uó!"
       Aliás, discutir o conceito de "normal" no nosso tempo beira o anacronismo. Eu, que sou/estou homossexual (Sei lá o que sou! Eu só sei que sou! Arroto para os rótulos!), só digo aos defensores infatigáveis da anormalidade homoerótica que, se ser normal é pertencer ao status quo com sua hipocrisia, ou seja, casar e procriar mesmo à custa da obliteração do Eu, violentar o corpo e a expressão com posturas que foram incrustadas como sendo as normais (afinal, homem que é homem, não chora, não cruza a perna em "x", não beija no rosto de seus amigos homens, não acha homem bonito, olha para a bunda das mulheres e faz gracejos obscenos e babacas, etc... E isso tudo é normal!) EU SOU ANORMAL!!!
       Talvez - e eu repito, talvez, pois se eu aqui apresentar um juízo de valor, estarei sendo contraditório - um comportamento não tanto saudável, digamos assim, seja a quantidade de homens casados e pais de família que procuram gays, travestis, transexuais, etc. (estes dois últimos, sim, segundo o julgamento dos "xiitas" devem ser uma espécie de representação do demônio na terra), para satisfazer seus fetiches sexuais. Isto sem mencionar os banheiros públicos masculinos onde classes, cores, credos, solteiros, casados se misturam numa fusão de instintos.
          É óbvio que não acho condenável estes fetiches, afinal se as partes envolvidas estão de comum acordo (não é?) qual é o problema? O que não acho muito justo é o fato de enganarem as suas famílias ou seus parceiros. Mas mesmo assim, ainda os respeito pois acho que as coisas não são fáceis de serem resolvidas de modo objetivo. Há que se entender o ponto de vista do outro. O que é fácil é apontar o dedo para o que julgamos ser a podridão alheia, mas olhar para os nossos problemas requer paciência e, acima de tudo, humildade. Lembro de ter lido uma comparação muito sábia não sei aonde: quando apontamos um dedo para outra pessoa, sempre haverá três dedos apontando para o nosso umbigo! Foda, não é? Pois é, eu também acho!
         Como dizia o carinha aquele que era outro anormal (não por ser gay - pelo menos que eu saiba! -, mas por outros motivos!) há mais mistérios entre o céu e a terra que a nossa vã filosofia possa imaginar!
       A propósito, como enquadraríamos um homem casado (a priori heterossexual) que gosta de sair com travesti e ser passivo? Um anormal? Sem querer ser tautológico e já o sendo este homem é um homem casado que gosta de sair com travesti e ser passivo!

           Sejamos felizes, porra!

              Um beijo em todos, em homens e mulheres e suas variações!


       É realmente difícil fazer um comentário a esta questão sem sermos parciais e superficiais ao mesmo tempo, pois estamos lidando com temas de uma complexidade profunda em que o clássico maniqueísmo do certo e do errado não faz sentido algum. Mas, de qualquer modo, parece-me que independentemente da complexidade do assunto é possível afirmarmos que todo e qualquer tipo de intolerância é algo negativo e, neste sentido, condenável. Entretanto, a quem condenaríamos se a intolerância e o radicalismo estão presentes nas ações das duas partes envolvidas na questão?
       O que me parece óbvio (obviedade esta vinda de uma perspectiva distanciada e, portanto, absolutamente parcial, é claro) é que a ação de queimar o Corão em praça pública seria o agente de muito mais problemas do que propriamente de soluções à convivência entre muçulmanos e protestantes. A destruição de uma obra sagrada (e mais do que isso: da obra basilar que fundamenta toda a religião islâmica) no fogo seria metonimicamente a reinstauração da própria Inquisição.
       E agora, José? O que faríamos diante da menção a este cruel episódio da História promovido por cristãos e protestantes? Neutralizaríamos os dois discursos radicais? Ou queimaríamos o Corão e a Bíblia na mesma fogueira?!?!

    

          O início do filme é soberbo! Uma das cenas de sexo mais belas que já vi no cinema: pelas angulações dos corpos, pela tonalidade azulada que cria uma atmosfera celestial a um ato concupiscente, pelo tempo desacelerado que dá uma certa poesia à cena. A pulsação dos corpos é uma dança, a música é orgásmica e, finalmente, o desenrolar da movimentação da criança ao sair do berço, correr em direção à janela e jogar-se de braços abertos de maneira intercalada ao ato sexual cria um contraste sacro-profano que é o propulsor de todo o drama arquetípico triádico: mãe, pai e filho.
          A relação psicanalítica entre marido e esposa é um outro fator relevante pela criação da hipertensão fruto da transgressão de pressupostos éticos psicanalíticos; o processo depressivo da personagem feminina é visceral e a relação que se estabelece entre os dois personagens incarna a própria relação entre os pólos masculino e feminino, que extrapola a relação homem x mulher e adquire todos os aspectos polarizados no conceito do Tao. O masculino caracterizado pela frieza, distanciamento, objetividade, pela atividade etc., etc., e a mulher pela subjetividade, pela passividade, pela dimensão uterina do ser. Útero este representado pela própria floresta para onde eles vão e onde o jogo vira, pois é o terreno por excelência feminino. Tanto que a floresta e a casa (outro símbolo fortíssimo, potencializado pelo fato de estar no meio da floresta) já estavam presentes no universo inconsciente da esposa. Aquele espaço acaba representando o próprio inconsciente, uma dimensão desconhecida, que quebra com a perspectiva racional, linear e cartesiana do marido.
          E é no momento em que há a quebra que o jogo muda. A mulher acaba assumindo o arquétipo da feiticeira, legitimado pela sua pesquisa particular (que, se não me falha a memória, era descreditada pelo próprio marido que, creio eu, a subestimava intelectualmente).
          Do pânico psíquico da mulher e do domínio do homem surge o processo de inversão: a mulher, agora identificada com a própria natureza (inclusive e sobretudo com a natureza noturna e uterina) transforma-se, traz à tona a fêmea visceral e constrói junto com a natureza – que assume, digamos, uma espécie de personificação – um terreno desconhecido e destruidor para a mente do homem.



Resolvi que ficarei quieto. Sem divulgações. Como um diário escondido em uma gaveta sem chaves. Quem o abrir que o faça com a consciência do acesso ritual a uma intimidade velada.

            Eis que início este processo de auto-revelação! Durante muito tempo, hesitei em realmente dizer o que penso em relação às coisas por vários motivos, muitos deles díspares entre si. Mas, ok, vamos lá... A primeira questão que surge, é claro, diz respeito à relevância daquilo que será dito. Por que cargas d'água seria interessante aquilo que escrevo? Para que escrevo? E, sobretudo, para quem? Quem irá interessar-se por relatos pessoais de alguém desconhecido? Seriam eles tão pessoais assim? O que de mim é pessoal e o que de mim é coletivo? E por aí as ramificações mentais se estendem a perder-se de vista... Na verdade, elas são tantas que não importa por onde irei começar, pois, necessariamente, o discurso correrá o risco de ser obtuso. Daí a escolha do "gênero diário" como recurso estruturador e regulador. Entretanto a ele imbrica-se o adjetivo "virtual" que desestrutura tudo.
                 

Uma caixa preta, uma luva de boxe, uma garrafa poética jogada ao mar, pequenas pedras caindo no rio calmo e, quem sabe, acionando concentricidades. Metáforas pensadas para este espaço híbrido. Processo de “criação literária” (ou talvez não) sui generis e desprovido de maiores conceitos a respeito de si mesmo. Um lugar,  um entre-lugar, um espaço cibernético cujo destino é absolutamente (o) inesperado. Um registro de pensamentos sobre todas as coisas. Um exercício de liberdade de expressão. Um lugar neutro. De uma neutralidade comprometedora. Uma camada neutrínica. Um subterfúgio de “reflexidões”!