agosto 2010

    

          O início do filme é soberbo! Uma das cenas de sexo mais belas que já vi no cinema: pelas angulações dos corpos, pela tonalidade azulada que cria uma atmosfera celestial a um ato concupiscente, pelo tempo desacelerado que dá uma certa poesia à cena. A pulsação dos corpos é uma dança, a música é orgásmica e, finalmente, o desenrolar da movimentação da criança ao sair do berço, correr em direção à janela e jogar-se de braços abertos de maneira intercalada ao ato sexual cria um contraste sacro-profano que é o propulsor de todo o drama arquetípico triádico: mãe, pai e filho.
          A relação psicanalítica entre marido e esposa é um outro fator relevante pela criação da hipertensão fruto da transgressão de pressupostos éticos psicanalíticos; o processo depressivo da personagem feminina é visceral e a relação que se estabelece entre os dois personagens incarna a própria relação entre os pólos masculino e feminino, que extrapola a relação homem x mulher e adquire todos os aspectos polarizados no conceito do Tao. O masculino caracterizado pela frieza, distanciamento, objetividade, pela atividade etc., etc., e a mulher pela subjetividade, pela passividade, pela dimensão uterina do ser. Útero este representado pela própria floresta para onde eles vão e onde o jogo vira, pois é o terreno por excelência feminino. Tanto que a floresta e a casa (outro símbolo fortíssimo, potencializado pelo fato de estar no meio da floresta) já estavam presentes no universo inconsciente da esposa. Aquele espaço acaba representando o próprio inconsciente, uma dimensão desconhecida, que quebra com a perspectiva racional, linear e cartesiana do marido.
          E é no momento em que há a quebra que o jogo muda. A mulher acaba assumindo o arquétipo da feiticeira, legitimado pela sua pesquisa particular (que, se não me falha a memória, era descreditada pelo próprio marido que, creio eu, a subestimava intelectualmente).
          Do pânico psíquico da mulher e do domínio do homem surge o processo de inversão: a mulher, agora identificada com a própria natureza (inclusive e sobretudo com a natureza noturna e uterina) transforma-se, traz à tona a fêmea visceral e constrói junto com a natureza – que assume, digamos, uma espécie de personificação – um terreno desconhecido e destruidor para a mente do homem.



Resolvi que ficarei quieto. Sem divulgações. Como um diário escondido em uma gaveta sem chaves. Quem o abrir que o faça com a consciência do acesso ritual a uma intimidade velada.

            Eis que início este processo de auto-revelação! Durante muito tempo, hesitei em realmente dizer o que penso em relação às coisas por vários motivos, muitos deles díspares entre si. Mas, ok, vamos lá... A primeira questão que surge, é claro, diz respeito à relevância daquilo que será dito. Por que cargas d'água seria interessante aquilo que escrevo? Para que escrevo? E, sobretudo, para quem? Quem irá interessar-se por relatos pessoais de alguém desconhecido? Seriam eles tão pessoais assim? O que de mim é pessoal e o que de mim é coletivo? E por aí as ramificações mentais se estendem a perder-se de vista... Na verdade, elas são tantas que não importa por onde irei começar, pois, necessariamente, o discurso correrá o risco de ser obtuso. Daí a escolha do "gênero diário" como recurso estruturador e regulador. Entretanto a ele imbrica-se o adjetivo "virtual" que desestrutura tudo.
                 

Uma caixa preta, uma luva de boxe, uma garrafa poética jogada ao mar, pequenas pedras caindo no rio calmo e, quem sabe, acionando concentricidades. Metáforas pensadas para este espaço híbrido. Processo de “criação literária” (ou talvez não) sui generis e desprovido de maiores conceitos a respeito de si mesmo. Um lugar,  um entre-lugar, um espaço cibernético cujo destino é absolutamente (o) inesperado. Um registro de pensamentos sobre todas as coisas. Um exercício de liberdade de expressão. Um lugar neutro. De uma neutralidade comprometedora. Uma camada neutrínica. Um subterfúgio de “reflexidões”!