Acredito na potência da Arte. Creio que ela atua por meios que são invisíveis e nos atingem de modo inexorável, a partir de processos complexos de difícil percepção... 


Algo que sempre me revelou o caráter sacroartístico da Arte é o sincronismo. Digo isto, pois logo depois de ter postado há uns dias a minha forte impressão em relação às estátuas que descobri ao acaso no alto dos prédios do centro de Sampa, minha mãe liga para mim lá de Rio Grande e me fala sobre este artista. Ela não sabia o seu nome e também não entendia o seu propósito artístico, mas o importante foi esta troca que, em última instância, só tem sentido para mim.

Anteontem, quando estava de novo caminhando perto do teatro municipal, deparo-me novamente com uma das estátuas deste artista, só que não mais no alto e sim no chão, do meu lado! Por alguns poucos segundos, muitas coisas se passaram na minha mente: primeiro, a deliciosa surpresa ao perceber que eu havia visto esta mesma exposição em Paris, no Jardin de Tuileries e ter me impressionado com ela nesta ocasião; segundo, pela reação que tive ao percebê-la: não parei para observá-la com olhos investigativos, mas, ao contrário, cruzei por ela e a senti de esguelha, como se não quisesse que ela me descobrisse, como se algo pudesse ser quebrado se eu a sentisse tão perto.

Escutei uma moça que comentou com falsa indignação ao seu parceiro o clichê: "E 'isso' é Arte?'" Tive vontade de dizer que não, que aquilo não era apenas aquilo que aparentava, que aquela imagem estava também em cima dos prédios, que aquela imagem também estava dentro de nós... Que Arte é algo difícil mesmo de compreender e que talvez o seu questionamento sobre o seu conceito já era um dos frutos desta manifestação artística... Na verdade, essas vontades eram todas fingidas. Pensei - escondido dentro de mim, olhando distanciado de cima dos prédios também - "que fique ela sacolejando-se com Michel Teló enquanto me regozijo com os insights profundos que estes seres me propiciam..."
 
Valdenir Gonçalves

Arte